Homenagem pública a Dra Gracinda de Sousa

 

Caros colegas

Caros colaboradores

 

A Escola Europeia de Medicina Transfusional (ESTM) organizou de 4 a 6 de Outubro, em Barcelona, o curso “ Controlo de Riscos de Qualidade na Transfusão Sanguínea”.

Este curso foi realizado em Memória da Dra Gracinda de Sousa, excelente profissional da Medicina Transfusional e membro muito ativo desta organização. A ESTM, como se pode ler no programa deste curso, pretendeu assim agradecer o seu apoio, as suas iniciativas, o seu critério e a sua qualidade enquanto pessoa.

Convidou-me a ESTM para proferir a apresentação em Memória da Dra Gracinda, convite este que muito me honrou.

Na impossibilidade dos profissionais do IPST estarem presentes, e porque a Dra Gracinda merece de todos nós esta homenagem, resolvi partilhar convosco, com todos vós, a minha apresentação e umas breves palavras, depois de alguns colegas me pedirem que o fizesse.

Devo dizer-vos que foi para mim não só uma enorme honra como também uma enorme emoção fazer esta apresentação e redigir estas palavras. Quero desde já agradecer a todos os que colaboraram, partilhando comigo pedaços da sua vida, da sua imagem e do seu saber, nomeadamente: a sua família João e Teresa, Sandra Xavier, Paulo Pereira, Paula Toscano, Carlos Falcão, Ana Paula Sousa, Leonilde Outerelo, Leandra Coelho e Eunice Aleixo.

Falecida a 13 de Julho de 2018, a Dra Gracinda, para além de uma postura pessoal sempre irrepreensível e pautada pela discrição e integridade, manifestou em todo o seu percurso profissional um saber consistente e um entusiasmo constante por tudo aquilo que considerava os pilares fundamentais da prática médica em geral e da medicina transfusional em particular.

Médica, especialista em Imunohemoterapia foi Diretora do Centro Regional de Sangue de Lisboa (1996 a 2006), trabalhou como clínica na área da transplantação, tendo sido Gestora da Qualidade no Centro de Histocompatibilidade do Sul (2008 a 2011) e concluiu o seu percurso profissional como Vogal do Conselho Diretivo do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (2011 a 2017).

Foi ainda Presidente do Conselho Fiscal da Associação Portuguesa de Imuno-hemoterpia e Presidente do Colégio desta especialidade da Ordem dos Médicos.

Contribuiu de forma indelével para a Medicina Transfusional em Portugal e para alguns dos programas atualmente em curso no IPST.

 Sendo um dos seus principais interesses a Qualidade, foi uma das principais impulsionadoras da implementação do Sistema de Gestão da Qualidade (SGQ) no Centro Regional de Sangue de Lisboa, foi Gestora da Qualidade no Centro de Histocompatibiliade do Sul e foi responsável pela harmonização, padronização e implementação de um SGQ comum aos três Centros de Sangue e Transplantação, enquanto vogal do IPST,IP.

Foi responsável pela implementação do Programa Estratégico Nacional de Fracionamento de Plasma com vista ao total aproveitamento de sangue do dador português.

Foi também uma das impulsionadoras do Sistema Português de Hemovigilância, integrando o Grupo Coordenador Nacional, e permitindo a sua consolidação e desenvolvimento de 2011 a 2018. São da sua responsabilidade as principais Circulares Normativas e Informativas no âmbito da Hemovigilância.

Outras duas importantes áreas do seu interesse foram a Formação, tendo sido responsável no início da sua atividade, pelas visitas de estudo ao CSTL, e a Investigação.

No âmbito da Formação foi sem dúvida relevante o seu contributo, em colaboração com o Professor Umberto Rossi, Carmen-Martin-Vega e Eduardo Muniz, para a realização dos cursos Ibéricos da Escola Europeia de Transfusão Sanguínea.

Representou Portugal (2011 a 2017) junto da Comissão Europeia, na reunião das Autoridades Competentes para o sangue e componentes sanguíneos bem como na European Blood Aliance.

Foi em Abril de 2018 medalhada com o grau de ouro da medalha de serviços distintos do Ministério da Saúde, em reconhecimento de todos estes factos.

Foi uma artista de exceção. Foi responsável pelas capas de importantes manuais do IPST. Grande parte das suas obras foram expostas em eventos individuais e coletivos.

Foi acima de tudo um Ser Humano de exceção!

Era uma pessoa Elegante! Tinha gestos suaves, um sorriso tímido, uma elegância natural mas marcante (violeta era a sua cor por opção).

Usava peças diferentes, nomeadamente joias de autor, que sobressaíam na sua figura discreta, esguia, e lhe davam um brilho inigualável.

Era uma artista e a arte estava sempre presente na sua imagem.

Tinha uma enorme elevação interior, interessava-se por filosofia, poesia e praticava yoga.

Tinha um enorme empenho em grandes causas sociais e era uma acérrima defensora de todos os que considerava diferentes, discriminados ou menos apoiados.

Era uma lutadora pela liberdade …

Emocionava-se com a arte ou com o talento!

Sabia ouvir…

Caracterizava –a uma cultura de Serviço público!

Excelente líder, batia-se por tudo aquilo e por todos aqueles em que acreditava!

Deixo-vos, com a autorização da família e da Sandra Xavier, as suas últimas palavras, a sua última reflexão sobre o Amor e a Vida,  e o magnífico poema de Mário Cesariny, com o qual teve o privilégio de privar!

 

Até Sempre Dra Gracinda!

Para sempre Dra Gracinda!

 

    Ama como a estrada começa

 

    Em todas as ruas te encontro

    Em todas as ruas te perco

    conheço tão bem o teu corpo

    sonhei tanto a tua figura

    que é de olhos fechados que eu ando

    a limitar a tua altura

    e bebo a água e sorvo o ar

    que te atravessou a cintura

    tanto, tão perto, tão real

    que o meu corpo se transfigura

    e toca o seu próprio elemento

    num corpo que já não é seu

    num rio que desapareceu

    onde um braço teu me procura

    Em todas as ruas te encontro

    Em todas as ruas te perco

                                            Mário Cesariny

 

        “Porquê este poema?!

        Porque diz tudo o que a vida deve ser.

        Na verdade, a estrada não chega a começar concretamente em lado nenhum.

        Começou um dia,

        um dia em que alguém celebrou o nosso nascimento,

        um dia em que por alegria de viver a vida começou

        mas não se sabe bem onde; quando estamos na estrada, não sabemos de onde ela vem, nem porque vem daí;

        não  sabemos porque tem aquelas curvas, nem porque vem assim … Damos por nós na estrada, e pronto.

 

        Com o amor é parecido: vem não se sabe de onde, nem como, nem porquê.

        E quando reparamos, ele já se instalou …

         De qualquer forma,

        Às vezes estamos na vida porque sim. Nada mais!

        Amar como a estrada começa,

        Diz-nos muito mais do que não permanecermos ligados aos porquês.

        Diz-nos para amarmos como a estrada começa: sem saber o seu caminho,

        Sem deixar que isso nos aprisione, sem que nos prive da liberdade para tentarmos ser felizes,

        Sermos felizes sem reservas, até ao infinito, até ao universo …”


                                                                                Gracinda de Sousa