Intervenção do Presidente do Conselho Diretivo do IPST,IP na Apresentação da Atividade Nacional de Doação e Transplantação, em Coimbra

 

A apresentação dos resultados referentes ao ano de 2018 da Atividade Nacional de Doação e Transplantação de Órgãos, Tecidos e Células,  teve lugar no Auditório do Instituto Português do Sangue e da Transplantação, IP – Centro de Sangue e da Transplantação de Coimbra, no passado dia 25 de março.

O Dr João Paulo de Almeida e Sousa, Presidente do Conselho Diretivo do IPST,IP acolheu os convidados com um discurso de boas vindas e encerrou a cerimónia com a intervenção que segue:

 

 

“Ex.mos Srs. Presidentes das Administrações Regionais de Saúde

Ex.mos Srs. Presidentes e membros dos Conselhos de Administração aqui presentes

Gabinetes de Coordenação, Colheita e Transplantação

Coordenadores Hospitalares de Doação

Diretores e responsáveis pelas Unidades de Transplantação

Presidente da Sociedade Portuguesa de Transplantação

Profissionais aqui presentes

Convidados

Saúdo-os calorosamente, envolvendo nesta saudação, naturalmente, todos os profissionais e estruturas do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST) e do Serviço Nacional de Saúde (SNS). 

Uma palavra para a Guarda Nacional Republicana, para a Força Aérea Portuguesa e Instituto Nacional de Emergência Médica, a quem continuamos agradecidos pelo apoio às atividades de transplantação.

O balanço da atividade da transplantação em 2018 face ao ano anterior, hoje aqui apresentado pela Coordenadora Nacional da Transplantação, deixa-nos preocupados, pensando naqueles que não tiveram acesso a um órgão.

Mas simultaneamente, deixa-nos espaço para o otimismo, pois verificamos existir ainda margem de crescimento no número de dadores.

Previmos há muito a evolução das dificuldades na obtenção de órgãos para transplantação e tivemos ocasião de o referir em várias circunstâncias.

Para além da imprevisibilidade da atividade de doação, as razões dessas dificuldades são bem conhecidas, pelo que não necessito de as enumerar, conquanto algumas sejam positivas em termos sociais e assistenciais.

Mas se o aumento quer da idade média dos dadores falecidos quer da taxa de utilização de órgãos são motivos suficientes para o registado decréscimo da atividade, as dificuldades na obtenção de órgãos irão agravar-se ainda mais se se continuar a não encarar todas as oportunidades de doação como um objetivo.

Nas nossas preocupações estão incluídas também a doação a partir de dador vivo que importa desenvolver de forma sustentada, tal como o aproveitamento criterioso de órgãos.

É conveniente relembrar que a atividade de doação de que depende a transplantação deve ser assumida como uma atividade de rotina, e, como tal, considerada uma obrigação dos hospitais e uma atribuição profissional e ética dos profissionais a quem estão acometidas essas funções.

Na análise do contributo dos diversos hospitais do SNS, para a atividade de doação, identificamos evidentes assimetrias entre eles, nalguns casos compreensíveis.

Por maioria de razão, os hospitais com urgências polivalentes terão de casuisticamente vir a ter mais dadores, e de entre estes, os que têm atividade de transplantação têm obrigações acrescidas no esforço de doação de órgãos.

Contudo, pelos resultados apresentados, não é esta a realidade que se constata no universo destes hospitais, e isto preocupa-nos, face à escassez de órgãos.

Quero dizer que, com grande probabilidade, continuamos a verificar existência de possíveis dadores que não são identificados como tal !

É preciso sublinhar, e se for necessário repeti-lo, que há hospitais que não estão a participar, com o seu potencial de doação, no esforço nacional para aumentar o número de órgãos disponíveis para transplantação.

Na solidariedade nacional, que tal esforço representa, reside a esperança dos doentes que legitimamente anseiam por um órgão, e que nós, profissionais e hospitais não podemos defraudar!

Tratam-se de situações que devem ser avaliadas.

Com objetivos pedagógicos e de melhoria, vamos avançar com auditorias regulares aos hospitais dadores.

Temos que reavaliar se o seu potencial de doação está a ser alcançado, e se os hospitais estão a cumprir com as obrigações decorrentes do Despacho de junho de 2017 respeitantes à implementação e aplicação das Normas Hospitalares de Doação que têm como objetivo aumentar o número de órgãos para transplantação.

Como já referi, as presentes taxas de utilização de órgãos e o aumento da idade média dos dadores preocupam-nos, e em nossa opinião podem explicar a diminuição do número de transplantes, mas não justificam integralmente a diminuição do número de dadores em morte cerebral.

É urgente mudar posturas e comportamentos nos hospitais perante as necessidades de órgãos que são de todos conhecidas.

Se há problemas ou obstáculos nos hospitais, têm que ser resolvidos, mas que não se venha a responsabilizar o IPST por estes resultados.

Diria que temos responsabilidades, mas neste momento decorrem também das expetativas entretanto criadas com os níveis elevados de doação e transplantação alcançados em 2017.

De 2017 para 2018 nada mudou em termos de organização que tenha contribuído para a diminuição verificada na transplantação.

Isto não retira que, dentro das nossas atribuições, no plano organizacional, não tenhamos de melhorar ou fazer o que falta, por exemplo no âmbito de programas de doação em vida até à alocação de órgãos, para aumentarmos o número de órgãos disponíveis.

Olhando o futuro, foram estabelecidos os programas de Doação em Paragem Cardio-circulatória (PCC) a funcionar  primeiro no Centro Hospitalar Universitário de São João, e depois nos Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e Centro Hospitalar Universitário Lisboa Central e que têm contribuído para aumentar a "pool" de rim para transplantação.

Sublinho que este é um trabalho que é e deve ser reconhecido e valorizado, devendo-se realçar que o Hospital de São João lidera este tipo de doação. 

Entendemos que é urgente que este programa avance também no Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra conforme previsto por Despacho, o que a não se verificar desde já, representa menos oportunidades de doação, independentemente de este Centro Hospitalar ter acima de 50 dadores em morte cerebral em 2018, o que importa salientar.

A escassez de órgãos, que é um problema à escala global, deve-nos fazer debruçar sobre as experiências alheias, e os seus resultados.

É o caso da doação em PCC, em que temos que fazer uma profunda reflexão sobre a possibilidade de se avançar com a revisão da legislação no nosso País que permita a doação em PCC controlada. Importa realçar que a Ordem dos Médicos através do seu Bastonário já manifestou plena abertura para esta discussão.

Face a estes resultados, não se pense que estamos preocupados com qualquer ranking, independentemente da nossa posição enquanto país, poder ser confortável no que diz respeito ao número de dadores falecidos.

Outros sim estamos preocupados com o facto de termos menos cidadãos com acesso a um órgão para transplantação.

Esses nossos concidadãos apontam-nos o caminho que temos que percorrer rumo ao Futuro, assente na análise das reais dificuldades do presente, com empenho, perseverança, dedicação e rigor.

Continuamos empenhados em fazer mais e melhor pelos nossos concidadãos.

A inovação que o Registo Português de Transplantação (RPT) nos trouxe vai dar um grande contributo nesta área, agilizando procedimentos com segurança.

Na área dos tecidos foi consignada este mês a obra de construção de duas salas limpas no Banco de Tecidos do IPST, dando-se inicio em breve a produção de córneas de cultura para transplantação, o que é de grande significado pelo que representa em termos de "estado da arte" e de se evitar a sua importação.

E porque a formação é um pilar fundamental na doação de órgãos, vai ter inicio amanhã mais um Curso TPM no Vimeiro para 50 profissionais, promovido pelo IPST.

Continuamos disponíveis e queremos trabalhar com todos, Profissionais, Hospitais e Sociedades Cientificas.

Continuamos otimistas na procura de soluções mas temos que acautelar o Futuro já hoje!

Obrigado pela Vossa presença!

 

Coimbra 25 de Março de 2019”

 

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