A propósito de uma PAP

Tudo começou na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa, mais precisamente no Curso Profissional Técnico de Apoio à Gestão Desportiva. Uma daquelas vias profissionais que os alunos podem optar ao terminar o 9º Ano de Escolaridade.

O aluno, André, de seu nome, quis fazer a sua Prova de Aptidão Profissional (PAP) no âmbito da Gestão Desportiva, era essa a sua via profissional, mas associada a uma doença, a uma patologia, uma vez que o seu objetivo é o de tirar a licenciatura em Medicina.

Foi-lhe feito o desafio, depois de outras hipóteses menos interessantes (na perspetiva do seu orientador) de abordar o tema da atividade física no jovem com hemofilia.

O tema seria um desafio para o André. O tema tem relevância, pela doença em si, pelos professores, especialmente para os de Educação Física, e para a comunidade escolar por onde poderá passar um aluno com hemofilia.

O André deu um título à sua PAP, “O ESTUDANTE COM HEMOFILIA: OBSTÁCULO PARA O ALUNO OU PARA O PROFESSOR?”

A temática da PAP centrou-se, essencialmente, na prática de atividade física por jovens com Hemofilia.

Em Portugal, a Associação Portuguesa de Hemofilia e de outras Coagulopatias Congénitas (APH) tem um reconhecimento internacional de excelência, face ao trabalho que tem vindo a desenvolver e a todos os mecanismos de apoio que proporciona aos jovens portadores de Hemofilia.

O que o André quis foi tornar esta PAP numa ferramenta útil para a promoção da atividade física neste público especial, bem como na disseminação de alguns tabus associados a esta coagulopatia.

Os Professores de Educação Física são um dos primeiros agentes de incentivo à adoção de estilos de vida saudáveis, nomeadamente, à prática da atividade física. Divulgar e promover o conhecimento das condicionantes associadas à Hemofilia junto dos docentes é fulcral, na medida em que permite a criação de um trabalho de foro preventivo, a fim de evitar que os docentes apenas entrem em contacto com as entidades competentes quando trabalham com um aluno que apresente estas características.

Este tema é considerado de elevada importância entre os jovens portadores e não portadores de Hemofilia, uma vez que, quanto mais conhecido for este distúrbio de coagulação, mais fácil será a integração destes jovens no ambiente social e escolar.

Os objetivos gerais desta PAP focam-se na integração harmoniosa do jovem com Hemofilia entre os seus pares, na divulgação da doença e na consciencialização dos docentes de Educação Física de todo o apoio que lhes é disponibilizado aquando do surgimento de um caso desta tipologia, não esquecendo que, numa coagulopatia como a Hemofilia, a ligação direta entre Encarregados de Educação, APH, docente e enfermeiro(a) /médico(a) é essencial para a prescrição correta dos exercícios.

Consta também nos objetivos desta PAP a preparação da Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho, corpo docente e não docente, para o acolhimento de alunos com Hemofilia e outras Coagulopatias Congénitas, tornando este estabelecimento de ensino uma instituição de referência para os possíveis futuros alunos, à semelhança do que já acontece com os alunos invisuais.

O André não quis apenas fazer uma PAP e entregá-la. Ele quis ir mais longe. Ele quis trazer a Hemofilia à Escola. Os dias 8 e 9 de maio foram os dias da Hemofilia na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho. O Presidente da APH, Dr. Miguel Crato, apresentou a Associação, o trabalho que ela tem desenvolvido, mostrou, num pequeno vídeo, as inúmeras crianças, jovens e adultos que vivem com a hemofilia e apresentou a realidade Europeia e Internacional.

Depois, o Dr. Luis Negrão, em representação do IPST, falou da produção de Fator VIII nacional, obtido através da dádiva voluntária e benévola de sangue, e realçou a importância da proximidade dos jovens à dádiva de sangue como salvaguarda da medicina transfusional.

Depois vieram as histórias de vida contadas na primeira pessoa. Uma mãe, Carla Ribeiro, que relatou a sua experiência como mãe de um jovem hemofílico, o Dr. Carlos Mota que contou a sua história de sénior enquanto hemofílico e por fim o Alexandre, um adolescente como muitos que encheram a sala da Biblioteca da Escola que nos deu o testemunho do que é ser-se jovem com hemofilia na Escola e no dia-a-dia.

A Prof. Paula Alves é uma professora diferente. Diferente porque tem feito um trabalho de excelência com os jovens e menos jovens nas piscinas do Casal Vistoso e ela mostrou-o na sua apresentação. Para ela “Ser desportista é uma opção; ser ativo é uma necessidade para a pessoa com hemofilia!”

E foi deste modo que se passou o dia 8 de maio na Escola Secundária Maria Amália Vaz de Carvalho.

Teria sido um dia como muitos outros no final de mais um ano letivo em que os alunos têm que apresentar as suas PAP’s. Teria sido um dia normal se o André não se tivesse excedido no empenho e na dedicação que colocou no seu trabalho.

 

Obrigado André.

 

 

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